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sábado, agosto 19

A ruminar



Desde que me lembro saber ler que tenho este hábito, um entre alguns, mas por ora e aqui só fica aprovado este. Costumo olhá-los ao longe, deitados, de modo a poder saborear em primeiro plano o nome, assim de lado, e, entre aproximações, tanto físicas quanto mentais, tento entrever a história por detrás do título que o deitou às prateleiras. O tempo histórico, as personagens, os riscos calculados ou não a que se entregam e com quem e porquê e a polpa da fruta que estou prestes a saborear. Deito-lhe a mão e sopeso-o.
Abro ao calhas e leio a passagem onde os meus olhos caiem pela primeira vez.



- anda comigo
e levaste-me para a cama. Enroscaste-te em mim e começaste
a coçar-me as costas, muito devagar. Dormimos muitas e muitas
vezes assim - e nunca, nem por um segundo, pensámos em fazer
aquilo a que os inocentes chamam sexo. Falávamos muito disso,
sim - desse acto a que as pessoas vão chamando sexo ou amor
consoante as conveniências e as circunstâncias. Esse acto que as
pessoas vão repetindo até à mais exaustiva solidão. Nós não podía-
mos prescindir um do outro. Não podíamos entrar no infinito jogo
finito do corpo. Derramei sobre a tua vida, por incontáveis noites,
os meus breves amores perfeitos, pormenor a pormenor. E tu der-
ramaste sobre a minha as tuas paixões impossíveis, impossíveis
de apagar. Desejo-te tanto, ainda.



página 109
Pedrosa, Inês.Fazes-me falta.




Não retrocedo as folhas. Por esta passagem me fico, por enquanto, enquanto que o baque tilinte cá dentro.



sexta-feira, julho 28

Sinais




Ou melindres de perseguição.
São, por vezes, colagens inesperadas que se aderem defronte dos olhos e nem as sacudindo, como o fazemos às moscas, elas se afastam.
Ainda não refeita do acordar e, enquanto me debatia mentalmente no pesar de acções, assimilar de sentimentos adormecidos, medir distâncias que nem sequer o são; os olhos caem sobre duas cartas de jogar - daqueles jogos em que monstros se debatem uns com os outros e onde a minha inaptidão é notória - deixadas ao acaso e por acaso por mãozitas brincalhonas em cima da mesa. Super Stamina e Sacrifice, assim se chamam as ditas. Não pude deixar de sorrir.
E de chorar. Quando o último som que ouvi a sair da radio, à partida, me dizia no te vayas.
E de me maravilhar. Quando adivinho o tema que se iria ouvir do grupo que tinha sido acabado de anunciar.


sexta-feira, junho 2

Tradução da escrita abaixo




Foi há tempos que me cruzei com um certo comentário, num blog de que agora nem me recordo "há alguns anos atrás também era gótica...".

Não pretendo negar a cada um a sua maneira de viver e sentir o que acontece na sua vida, nem acho que a minha seja O modo, só que ao ler tal frase algo cá dentro abanou.
Não consigo depreender este estado como sendo passageiro: Ou se é, ou nunca se foi; não há passagem nem retrocesso. Mas isto sou eu em sê-lo.
Quanto a mim, ser-se gótico vive-se no, e para o, interior. É todo aquele que constroi um reino dentro de si porque se vê impossibilitado de o erigir na realidade que o rodeia--e isto provavelmente nada significa a quem me lê, a não ser para mim, porque o sinto.
Daí aquele aparente vazio. O vazio visível.
No meu imaginário os seres vagueiam nus sem artefactos ou artifícios exteriores, porque a imagem é o ruído de fundo, o que está a mais, e quanto menos ruído, mais preenchida será a essência do ser.
Restringida, desse modo, ao imprescindível.

Mas isto sou eu.



quinta-feira, junho 1

No ser-se gótico

Ou melhor: No meu ser gótico.


(
















)

Não é gralha nem falta: Não me esqueci do texto.
Mas nem por isso está vazio.